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O gosto de uma lágrima


Era uma vez uma jovem chamada Mariana e que não sabia chorar. Nunca em seus olhos havia rolado uma lágrima, nem mesmo quando era criança. Quando brincava com outras crianças e as vezes brigavam, ela nunca demonstrava fraqueza e muito menos arrependimento. Assim cresceu Mariana, garota de poucos amigos, bela e formosa, mas essas características eram ofuscadas pelo seu olhar seco e sombrio.
Um de seus poucos amigos, George, sempre a acompanhava onde fosse. Ele era um dos poucos a agüentar o temperamento de Mariana, ou melhor acho que era o único.
Todos na pequena cidade de Luxemburgo não entendiam o porque daquele comportamento. Quando ela passava logo diziam ao cochichos: - Não entendo como uma pessoa criada pelo Marcos e a Lúcia pode ter esse comportamento! Só pode ser gênio do diabo !
Muitas vezes Mariana escutara esses comentários, mas sempre suportava tudo, como prova: seu silêncio. O silêncio e a sequidão invadiam aquela face branca muitas vezes sem expressão alguma.
George, ao contrario de sua amiga, era uma pessoa bastante expressiva e preocupava-se muito com ela. Ninguém conseguia entender como aquelas duas criaturas de caracteres tão distintos podiam suportar um ao outro, e o mais estranho como Mariana, sendo como era, já não havia jogado aquela amizade fora e se afastado como dantes tinha feito com muitos.
O dia em que a vida de Mariana daria uma reviravolta estava próximo.
Certo dia, na escola, chegou um novo aluno o Henrique, vindo do sul do país. Garoto simpático e bastante atencioso, essas características foram as únicas que apareceram até agora.
Algo inédito aconteceu: os olhos de Mariana brilharam ao ver aquele rapaz, e um sorriso quis se formar em sua face. Ela mesma se assustou com aquela atitude, mas não conseguia resistir ao sorriso carismático de Henrique.
George logo percebeu que algo havia mudado nela, mas não quis puxar assunto e deixou passar. Na semana seguinte algo incrível acontece. A aula já havia começado e todos estavam na sala, menos Mariana, George já estava preocupado, quando de repente alguém surge a porta. Era Mariana, todos os olhares se voltam para ela e um forte e animado “Bom Dia”! sai da boca dela. Todos continuam olhando pra ela que caminha ondulante até seu lugar, mas não era só a atitude de Mariana que havia mudado. Suas vestes pretas e de cores mórbidas deram lugar a um lindo azul celeste que combina com seus olhos lindos.
Todos se surpreendem com aquela nova pessoa que acabara de surgir ali na frente de todos. Como uma garota fria, irredutível e seca havia dado espaço para uma garota vívida, terna e vistosa? Era o que todos da cidade comentavam agora.
Diante de toda essa mudança o George foi sondá-la para saber o motivo de tão repentina mudança. Então ela resolveu abrir-se para seu amigo que sempre esteve ao seu lado.
- Eu nunca pensei que algo assim aconteceria na minha vida!
- O que?
- O Henrique!
- Você está apaixonada por ele, não é?
- Sim, eu o amo.
Então ele confirmou o que já pensava.
- Então foi por ele toda essa mudança?
- Sim!
Enquanto falavam o semblante dela era pura felicidade e lividez.
Dois meses se passam depois dessa mudança brusca que mudou a vida de Mariana. Esses dois meses George havia passado em uma clinica, pois estava cirurgiado. Quando ele voltou muitas coisas haviam mudado, e pra sua surpresa maior Mariana estava namorando com Henrique.
Na cidade não havia outro comentário: - Que casal perfeito – Quando passeavam pela praça central arrancavam suspiros de todos que ali estavam. Mas uma coisa que os fofoqueiros sempre se perguntavam: - Nunca ninguém os viu se beijando, será que é namoro mesmo? –
Isso era verdade, Mariana não havia ainda dado seu primeiro beijo de amor em Henrique, por medo? Não sei! Mas esse dia chegou. Os dois estavam a beira de um lago, sentados em uma pedra, quando ele olhou nos seus olhos e começou a acariciar a face dela que era lívida e branca. Então as duas faces brancas e belas foram de encontro uma da outra, se podia ouvir ao fundo uma linda melodia vindo da cidade. Enfim seus lábios se encontraram e um lindo beijo aconteceu com o pôr-do-sol.
Agora era que a felicidade dela estava completa e também era agora a hora em que ela menos pensava em chorar. Um amor pode mudar uma vida e a quebra de uma ilusão pode destruí-la.
A felicidade de Mariana estava com seus dias contados, algo terrível viria abalar aquele amor que fazia seu coração bater mais rápido.
Era chegado o dia de seu aniversário, data nunca comemorada antes, e ela resolveu dá uma festa em sua casa. Convidou grande parte da cidade.
Chegou o tão esperado dia. Mariana estava esplendorosa, recebia os convidados e os presentes quando Henrique chegou com uma caixinha preta no bolso e se pondo de joelhos, abiu-a. Eis que dentro estava um lindo anel de compromisso, então foi feito e aceitado o pedido e os dois selaram o compromisso com um lindo e terno beijo. Antes do fim desse beijo ouviram uma voz vinda do palco era Vanessa, colega de turma dos dois, tomou o microfone do cantor e começou a falar:
- Esse noivado não pode acontecer!
Todos os olhares se fitam nela.
- Eu estou grávida dele! Do Henrique!!
Quando Vanessa disse essas palavras Mariana perdeu o chão. Ele tentava acalmá-la tentando se explicar, mas ela gritava desesperada. Não tinha o que explicar, era tudo verdade. Antes deles começarem a namorar, o Henrique já havia iniciado um outro relacionamento com Vanessa e ninguém desconfiava.
Houve um grande tumulto na festa, as pessoas ficaram horrorizadas com aquela história – Jamais pensei que um garoto com o esse pudesse fazer algo desse tipo – Disse uma senhora da cidade.
Não há sinal de lágrimas nos olhos dela, mas sim ódio e revolta. Esse ódio a leva a pegar uma faca que está em cima de uma das mesas e a enfiá-la no peito de Henrique. Ele cai sangrando no chão. Todos correm em direção a ele para socorrê-lo, ela aproveita e sai correndo. Chega até o logo onde havia derramado e dado todo o teu amor a Henrique na noite anterior.
Ela senta-se naquela mesma pedra e observa o reflexo da lua cheia na água, então em seu olho se forma uma lagrima e que escorre pelo seu rosto até sua boca. Daí ela pode sentir o gosto salgado de uma lágrima.
George, que a havia visto correr, saiu atrás dela, mas quando ele chega encontra apenas o corpo de Mariana boiando na água fria do lago. Ele não conteve as lágrimas nem os gritos, que ecoaram naquela noite triste.



Geildo N. Lúcio
UEPB.