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Sete Corações

Sete corações


Era inverno e chovia muito quando a condessa Alicia vinha encontrar seu noivo visconde de Edgaria. A noite era extremamente escura com pouca visibilidade e o cocheiro mau conseguia enxergar a estrada. De repente um animal, não se sabe ao certo que animal era, atravessa a estrada no instante que a carruagem passa por um precipício, então quando o cocheiro tentou desviar-se do estranho animal a carruagem despenca no precipício. Ninguém sobreviveu. No dia seguinte a noticia chega a corte e chega também aos ouvidos do visconde que fica desesperado ao saber que sua amada e linda noiva havia morrido.
Uma tristeza imensurável invadiu o visconde de Edgaria que não se conformava com partida de sua amada. Seu velho pai tentava reanimá-lo oferecendo tudo o quanto podia: mulheres, dinheiros e viagens. Mas nada o fazia emergir daquele mar de dor. Com um tempo começou a se embriagar todos os dias e perambulava noite a dentro pelas ruas da corte. Em uma dessas perambulações pelas ruas ele é abordado por um velho envolto em um lençol marrom amarrotado e muito velho. Não se podia ver o rosto do velho e o visconde como estava muito ébrio mau conseguia sustentar-se nas pernas. E sem ver quem era o velho desmaiou, quando voltou aos seus sentidos estava em uma cama rodeado de velas ainda era noite, acho que madrugada.
Ele tenta levantar-se mas ainda está tonto por causa da bebida então torna a deitar-se. Nesse tempo o velho chega, o que o abordara na rua, com um copo de chá e entrega-o ao visconde que com a vista ainda embaçada recebe o copo e bebi o chá. Passado algum tempo após o chá o visconde de Edgaria recupera todos os seus sentidos por completos e procura situar suas idéias. Não sabendo onde estava ele finalmente levanta-se e quando sai fica face a face com o velho então agora se pode ver o rosto dele. É um rosto muito queimado pelo sol, sobrancelhas grossas e brancas ele também quase não tinha cabelos. Depois de visto o rosto do velho o mesmo fala com voz rouca: - Vosmecê está bem?
- Sim estou melhor. Afinal quem tu és e onde eu estou? E o velho sentando-se em uma cadeira na varanda da cabana e mandando o sentar também, disse: - Eu não podia deixar vosmecê jogado ao chão, pois como pode um visconde como tu jogado nas ruas sujas da corte? – Como sabes quem sou? – Ora, eu sei de muitas coisas, sei também que perdestes vossa noiva num trágico acidente.
Nesta hora o visconde vira sua face tentando esconder sua tristeza e diz com palavras embargadas: - Mas isso todos já sabem, e tu ainda não disse quem eras.
O velho olhava atento para um grande carvalho ao lado de um lago bem em frente onde estavam e depois de alguns instantes virou o rosto para o visconde que estava a espera de uma resposta e com um olhar extremamente macabro falou: - Eu sei como trazer sua noiva de volta a vida! – E um vento muito forte começou a balançar o carvalho e a agitar a água do lago.
A primeira reação do visconde foi de total desprezo - Vosmecê não tem vergonha de caçoar dos sentimentos de um homem que perdeu sua única razão de viver?! – Não foi essa minha intenção, o que falo é pura verdade – O velho levanta-se e pega na mão direita do visconde e o conduz até embaixo do carvalho enorme, chegando lá ele dá ao visconde uma espécie de chá muito amargo. Depois que ambos tomam o chá sentam- se embaixo do carvalho é ai que o vento sopra mais forte do que já estava soprando e o visconde começa a ouvir uma voz bastante longe, voz essa que vai se aproximando. Então ele reconhece a voz, era o mesmo timbre de voz de sua amada noiva Alicia. Ele entra em êxtase e começa a procurar sua amada, mas nada vê. Então fica desesperado por não ver Alicia e começa a balançar o velho perguntando por ela, ele nada responde, então o visconde se prostra diante do grande carvalho é aí que o velho levanta-se e coloca sua mão enrugada sobre o ombro dele e diz: - Calma! Vou contar tudo a vosmecê – E o levando de volta a varanda da cabana começa a dizer o que aconteceu – O que a vossa noiva disse? – Como o que ela disse? Vosmecê estava lá e escutou! – Disse o visconde levantando o tom da voz – Não meu filho eu não escutei o que ela disse, mas me responda o que foi – Ela me dizia que queria voltar para nos casarmos, ela implorava!
O velho começou a dizer o que deveria ser feito para que Alicia voltasse. Para isso ocorrer o visconde deveria trazer para ele sete corações de sete virgens. O visconde reagiu com asco, dizendo que aquilo era loucura, mas o velho tentava persuadi-lo dizendo: - Eu já lhe dei provas o suficiente que vou trazer sua noiva de volta, vou lhe dar um tempo. Agora vá para casa e reflita.
Quando o visconde chegou em casa já era dia, ele mau conseguia pensar só o que lhe vinha na mente era a voz de sua amada clamando por voltar. Dois dias se passaram e ele na mesma lástima. No terceiro dia ele decidiu procurar o velho e foi até aquela cabana, chegando lá ele já o esperava – Eu sabia que viria, aqui está o punhal com que vosmecê irá arrancar os corações – Disse o velho apontando para um punhal de ouro, totalmente de ouro, que reluzia em cima de uma mesa. Sem dizer uma só palavra o visconde pega o punhal e vai saindo quando velho o faz parar – Eu quero os corações ao final de sete dias – O visconde apenas balança a cabeça positivamente e sai.
Já é noite quando o visconde sai a procura de corações. Ele pensou em levar corações de animais, mas logo desistiu. A voz de Alicia continuava ecoando em sua mente e aquilo o dava forças para continuar com aquele pensamento.
De repente ele pára próximo a mansão de D. Firmino e vê que sua jovem filha esta ao portão sozinha. Ele se aproxima e a cumprimenta. Seus globos oculares se movimentam rapidamente para os lados temendo que alguém viesse, pois a rua estava deserta, e o surpreendesse, ele suava e tremia até que criou coragem e agarrou a pobre moça que mau sabia o que lhe estava por acontecer. O Visconde arrastou-a até um beco escuro, a amordaçou e lá extraiu seu coração com a maior frieza possível. O coração sangrava e palpitava em sua mão.
O crime chocou a cidade, todos ficaram temerosos. A milícia da corte começara a investigar aquele frio assassinato. Na noite seguinte o Visconde faz mais uma vitima, agora a filha do padeiro. E assim ele continuou, todas as noites fazia uma vitima. Faltava apenas um coração para completar os sete. Na cidade não se via mais nenhuma donzela, muitos dos pais já haviam mandado suas filhas para outras cidades, pois temiam por elas. O Visconde de Edgaria se viu em um beco sem saída, pois seu prazo estava no final.
Não encontrando nenhuma vitima teve que procurar em casa. Sua irmã Mirela dormia, quando ele entra seu quarto as escuras iluminado apenas pelo brilho da lua cheia. Aquele mesmo vento que ele sentira em baixo do grande carvalho o arrepiava a espinha e balançava as cortinas do quarto. Então em um ato rápido ele insere o punhal no peito de sua irmã. Com o coração de sua irmã na mão ele se sente aliviado e logo sai em busca da cabana do velho. A noite estava terrivelmente fria e escura. Ele caminhava em paços largos quase correndo.
Chegou a cabana do velho ofegante, e colocou o saco com os corações das donzelas em cima de uma velha mesa de madeira. O velho sorrindo , um sorriso macabro, o elogia e o leva mais uma vez até em baixo do carvalho. E se inicia um ritual, o vento sopra mais rápido ao som das palavras balbuciadas pelo velho, mas é ai que a milícia chega até a casa do velho e surpreende os dois, em um ímpeto o Visconde corre em direção a mata e lá se esconde. E escuta o capitão da milícia falar com o velho que ainda está em uma espécie de transe – Até que enfim o encontramos seu velho louco, ele fugiu do manicômio a alguns meses, usou umas ervas para enganar os vigilantes e fugiu.
O visconde ouvindo aquela historia se sente enganado e começa a chorar sentido agora não só a morte de sua noiva mais também a de sete donzelas. Então ele some na escuridão daquela noite


Geildo N.Lúcio
UEPB

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